quinta-feira, 29 de novembro de 2018


Vi um cachorro


Fonte:       http://hairpic.pw/TUDO-O-QUE-PRECISAMOS-AMOR-E-UM-CACHORRO.html



Vi um cachorro. Falando assim até parece que era a primeira vez que eu via um cachorro ou que o cachorro era um ser extraterrestre nunca visto antes. Eu já tinha visto um cachorro antes, mas esse era especial. Não, ele não possuía poderes mágicos ou algo do tipo. Era um cachorro normal, porém especial para mim. Esse cachorro me chamou a atenção por um motivo que você vai entender logo. O cachorro estava sentado, calmo, com uma feição de tranquilidade específica de cães, uma tranquilidade rara em um humano. O olhar sereno, a respiração controlada, parecia observar as pessoas de longe. O modo como o cachorro olhava fazia imaginar que ele estava pensando, analisando a estranha espécie humana. Ele parecia um ser superior que observava aqueles que eram inferiores a ele, sem julgar, sem se preocupar, sem pensar em soluções. Apenas observava. Nesse momento, me coloquei no lugar do cachorro. Geralmente, o ser superior é o humano. Superior a todos os animais. O ser humano pensa, faz, inventa, encontra, descobre, cria... o ser humano evolui. O único entre todas as espécies a possuir a linguagem, o que o torna o ser superior. Agora os papéis estavam invertidos, o cachorro era o ser superior. Imaginei-me o cachorro que observava a sociedade. Então, me questionei: “seria mesmo o homem superior a todos os seres? Será que o fato de pensar, fazer, inventar, encontrar, descobrir e criar o tornava superior? Se isso tudo era sinônimo de superioridade, por que, então, o homem estava levando o planeta ao declínio? Se o aquecimento global é culpa do homem... o desmatamento, a poluição, a extinção de outras espécies... Será o homem o ser evoluído? O ser superior?” Mas no fim, percebi que o cachorro apenas observava, sem julgar. O cachorro não parecia julgar o homem pelo fim do planeta. Eu, como ser humano, julgava. Talvez o ser superior fosse realmente o cão, que apesar de motivos extremamente fortes, não julgava, apenas observava.  
Carolina Campos, 2018

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A noite e os telhados


Fonte: httpspt.pngtree.comfreepnghand-painted-rainy-days-squat-on-a-square-brick-roof_3456189.html

Era uma quinta-feira de feriado. Havia chovido. Dois fatos que podem manter as pessoas em suas casas. Já passava da meia noite quando acabei de tomar banho e fui pendurar minha toalha no varal da área de serviço da minha casa. Meu irmão desenhava um belo e complicado telhado como atividade avaliativa do curso de arquitetura. Até aqui nada faz sentido, não é, leitor? Saiba que estou apenas preparando o cenário para que você possa imaginar melhor o que falarei daqui pra frente. Pois bem, vamos seguir em frente. Me debrucei no parapeito molhado da área de serviço, o céu estava ainda meio esbranquiçado por causa das nuvens. Então, uma coisa me chamou a atenção: o silêncio. A cidade estava calada, exceto pelos grilos que conduziam a trilha sonora do momento. Não havia barulho de carros, motos ou qualquer outro automóvel. As janelas apagadas, todos os cachorros da vizinhança pareciam dormir. Nem sinal de gatos. Aquela era uma noite atípica em um bairro que costumava fazer barulho até as três da madrugada. Eu olhava para os telhados em meio ao céu nublado da meia noite. Cada qual com seu peito de pombo, sua cumeeira, sua eira e sua beira. Cada qual abrigando sua família que dormia ao som silencioso da noite de descanso. Então comecei a pensar na rotina das famílias da cidade: diferentes ocupações durante o dia, correria e estresse e ao cair da noite, estavam todos aconchegados debaixo de seus telhados. Mas e então, leitor? E aqueles que não tinham seus telhados? Onde estariam? Para onde iriam a noite? Não estavam debaixo de seus telhados, mas não faziam barulho. Não faziam perceber sua presença. Onde estavam? Se havia chovido e a rua estava molhada, onde estavam? E na hora da chuva, onde estavam? No fundo, você sabe, leitor. Estavam debaixo das marquises da cidade do barulho. Enquanto a cidade acontecia durante o dia, enquanto as pessoas levavam suas vidas agitadas, diferentes ocupações, correria e estresse, eles estavam no silêncio. Silenciados em meio à multidão com suas presenças imperceptíveis. Em meio à cidade do barulho, eles eram o silêncio. E agora se encontravam debaixo das marquises. As marquises eram seu telhado. Sem peito de pombo, sem cumeeira, sem eira e nem beira. Apenas seu telhado.

Carolina Campos, 2018

domingo, 25 de novembro de 2018


2018


Fonte: https://br.pinterest.com/pin/138204282294850658/?lp=true

Estava eu sentada em um café aproveitando os últimos minutos até a próxima aula que daria. Uma mulher apareceu acompanhada de um berro escandaloso. Susto! Era apenas uma senhora encontrando sua amiga que já estava sentada ali. As duas se juntaram para um café e uma conversa. Assim que abriram a boca tive a impressão de que o café estava mais gostoso do que a conversa. Começaram a falar sobre o futuro presidente do Brasil: uma defendia o candidato militar e a outra estava confusa. A defensora do candidato militar o enchia de elogios e falava de como ele iria condenar os bandidos e colocar limites no povo. Segundo ela, ele iria “acabar com a safadeza do povo”, não haveriam mais gays e essas “safadezas” que vemos na rua todo dia. A indecisa parecia pensar ser uma boa ideia apoiar o candidato militar e então resolveu falar algumas palavras depois do majestoso discurso da amiga – eu ouvi dizer que ele é a favor da família e da vida, Deus acima de tudo –. Resolvi me levantar e caminhar devagar em direção à minha próxima aula. Ao parar para atravessar a rua, esperando o sinal fechar, um jovem enfurecido falava ao telefone ao meu lado – Não acredito nesse momento que o país está vivendo, um momento de extrema burrice –. Pelo rumo de sua conversa, o jovem era a favor do candidato do povo – os poucos direitos que nós, pobres, temos estão ameaçados –. Mais a frente, me surpreendo com um grupo de jovens indo para a escola, eles pareciam frequentar o ensino médio, mas eram velhos o suficiente para já estarem fora da escola. Eles gritavam ouriçados sobre como gostavam do candidato militar. Ele iria acabar com os bandidos porque “bandido bom é bandido morto”. Uma das jovens ergueu a voz e retrucou – mas se vocês querem matar bandido, vocês apoiam o assassinato e se apoiam o assassinato, são bandidos também. Vocês também acham que seria melhor se vocês estivessem mortos? – os garotos não responderam, começaram a gritar um tal de “nada a ver, nada a ver”. Ao passar por essas cenas, me lembrei de outra cena vivida por mim um pouco mais cedo naquele mesmo dia. Uma menina acalmava sua amiga no ônibus dizendo que não tivesse medo, pois elas já estavam quase se formando e suas vagas na universidade pública não corriam riscos. A outra contestava perguntando se a amiga não pensava nos outros, se não pensava nos usuários do sistema de saúde pública. Logo vi que ela apoiava o candidato do povo. Tudo isso me causou uma raiva repentina. Quando me dei conta, estava tomada por fúria e indignação. Percebi que os que tinham consciência real da situação em que vivíamos eram poucos e o país poderia estar tomado por pessoas que não sabiam o que estavam fazendo. Mas, rapidamente a raiva passou e a fúria e indignação foram embora, pois em um instante percebi uma coisa: para o bem ou para o mal, pela primeira vez, se falava mais de política do que de futebol.
Carolina Campos, 2018.