domingo, 25 de novembro de 2018


2018


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Estava eu sentada em um café aproveitando os últimos minutos até a próxima aula que daria. Uma mulher apareceu acompanhada de um berro escandaloso. Susto! Era apenas uma senhora encontrando sua amiga que já estava sentada ali. As duas se juntaram para um café e uma conversa. Assim que abriram a boca tive a impressão de que o café estava mais gostoso do que a conversa. Começaram a falar sobre o futuro presidente do Brasil: uma defendia o candidato militar e a outra estava confusa. A defensora do candidato militar o enchia de elogios e falava de como ele iria condenar os bandidos e colocar limites no povo. Segundo ela, ele iria “acabar com a safadeza do povo”, não haveriam mais gays e essas “safadezas” que vemos na rua todo dia. A indecisa parecia pensar ser uma boa ideia apoiar o candidato militar e então resolveu falar algumas palavras depois do majestoso discurso da amiga – eu ouvi dizer que ele é a favor da família e da vida, Deus acima de tudo –. Resolvi me levantar e caminhar devagar em direção à minha próxima aula. Ao parar para atravessar a rua, esperando o sinal fechar, um jovem enfurecido falava ao telefone ao meu lado – Não acredito nesse momento que o país está vivendo, um momento de extrema burrice –. Pelo rumo de sua conversa, o jovem era a favor do candidato do povo – os poucos direitos que nós, pobres, temos estão ameaçados –. Mais a frente, me surpreendo com um grupo de jovens indo para a escola, eles pareciam frequentar o ensino médio, mas eram velhos o suficiente para já estarem fora da escola. Eles gritavam ouriçados sobre como gostavam do candidato militar. Ele iria acabar com os bandidos porque “bandido bom é bandido morto”. Uma das jovens ergueu a voz e retrucou – mas se vocês querem matar bandido, vocês apoiam o assassinato e se apoiam o assassinato, são bandidos também. Vocês também acham que seria melhor se vocês estivessem mortos? – os garotos não responderam, começaram a gritar um tal de “nada a ver, nada a ver”. Ao passar por essas cenas, me lembrei de outra cena vivida por mim um pouco mais cedo naquele mesmo dia. Uma menina acalmava sua amiga no ônibus dizendo que não tivesse medo, pois elas já estavam quase se formando e suas vagas na universidade pública não corriam riscos. A outra contestava perguntando se a amiga não pensava nos outros, se não pensava nos usuários do sistema de saúde pública. Logo vi que ela apoiava o candidato do povo. Tudo isso me causou uma raiva repentina. Quando me dei conta, estava tomada por fúria e indignação. Percebi que os que tinham consciência real da situação em que vivíamos eram poucos e o país poderia estar tomado por pessoas que não sabiam o que estavam fazendo. Mas, rapidamente a raiva passou e a fúria e indignação foram embora, pois em um instante percebi uma coisa: para o bem ou para o mal, pela primeira vez, se falava mais de política do que de futebol.
Carolina Campos, 2018.

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